Cultivar a paciência

Coragem para aparecer 

Para a Medicina Tradicional Chinesa a circulação energética fluida e desimpedida é da responsabilidade do Fígado – assim como o funcionamento harmonioso dos ciclos do corpo.

Ciclos significam ter fome a horas regulares, ter sono quando a noite chega, ou acordar de manhã sem pensar em adiar mais 10 minutos.

Nas mulheres, a menstruação é um indicador do estado do Fígado e a sua ausência em período fértil pode ser causada por desordens neste órgão.

O Fígado, é também responsável pela emoção que está relacionada com a criatividade. Quando existe um bloqueio na expressão criativa, surge a raiva e frustração.

Criatividade e a Raiva são faces da mesma moeda.

Não se consegue determinar se é um Fígado em desequilíbrio que tem a capacidade de gerar a raiva e frustração se é a raiva e frustração que vai criar um Fígado desequilibrado.

Assim como não se consegue precisar se é a criatividade que vai nutrir a saúde do Fígado se é um Fígado saudável que expressa a sua presença no mundo com criatividade.

Numa perspectiva Budista, a raiva é considerada um dos factores mais nocivos para o ser humano.

“A mente não encontra paz, nem sabe dar valor ao prazer e à alegria, não encontra descanso no sono ou na coragem, quando o espinho da raiva está alojado no coração.” –

A Guide to the Bodhisattva Way of Life – Santideva – capítulo VI, parágrafo 3.

Mais à frente no parágrafo 5.

“Mesmo os amigos têm medo dele. Dá, mas recusa em ser servido. Em resumo, não existe nada que faça uma pessoa enraivecida feliz.”

Relacionando os textos de Santideva com a Medicina Tradicional Chinesa encontramos algo semelhante, pois a raiva provoca a alteração do correcto fluir da Energia Vital.

Altera os ciclos naturais do corpo e cria um estado de agitação permanente, muito semelhante a ser-se levado pelo vento – às vezes em várias direcções ao mesmo tempo.

Tradicionalmente um dos antídotos para a raiva e frustração é a Paciência.

Na Escola de Medicina Tradicional Chinesa onde estudei e ensinei, os alunos são encorajados a rever os seus hábitos alimentares e a introduzirem nos seus dias a prática do Chi Kung.

Estes hábitos, convidam os alunos à paciência e compaixão, não pelo mundo, não pelos outros – mas por eles mesmos.

Porque como seres humanos que somos iniciamos hábitos que nem sempre acabamos, criamos expectativas de nós mesmos que não conseguimos cumprir. Nem sempre é possível que a alimentação seja a mais correcta, que o sono seja reparador, que um estado de equanimidade seja mantido e que as emoções mais cáusticas se mantenham apaziguadas.

É ao lidar com os desafios que se propõe a si mesmo que é possível compreender o poder da paciência e compaixão para consigo e como a raivas e frustrações não são emoções que favoreçam o seu processo crescimento.

Entende com este exercício que a sua condição humana é diferente de um relógio suíço de alta precisão.

Sim, falhamos constantemente, muitas vezes ao dia, é humano – Agora respire fundo, sorria e tente de novo.

Mas se nos é dada a possibilidade de falhar, é nos dada também a possibilidade de explorar os erros de forma criativa – o que um relógio suíço não tem a capacidade de fazer por ele mesmo.

Quando no primeiro ano de estudos de Medicina Tradicional Chinesa o aluno aceita a proposta de olhar para a sua capacidade de se transformar por si mesmo, mais tarde – quando inicia a sua prática clínica – vai resultar em paciência e compaixão com quem os procura – porque já passaram por um processo semelhante.

Porque os pacientes começam hábitos que nem sempre acabam, têm expectativas de si mesmo que não conseguem cumprir, nem sempre fazem a alimentação prescrita, nem sempre dormem as horas necessárias para a sua recuperação e encontram desafios em regular as suas emoções.

A raiva e frustração direcionada para o paciente, mesmo que de uma forma silenciosa, são emoções  que não colaboram no seu processo crescimento – nem do paciente nem do terapeuta.

A paciência connosco leva a uma paciência com o que nos rodeia. Porque para tratar os outros necessitamos primeiro de tratar de nós, só passando pelos os mesmos processos é possível compreender e ajudar quem nos procura.

E não tem de ser terapeuta. Esta possibilidade pode também ser encontrada no seu dia a dia.

Voltar as vezes que sejam necessárias, como se fosse a primeira vez, até o hábito a que se propõe acabar por estabilizar e tornar-se parte integrante de si.

  • Seja ele um hábito alimentar;
  • Seja deitar-se ou levantar-se mais cedo;
  • Seja compreender uma emoção perturbadora que surge constantemente;

Aqui o antídoto à raiva e frustração surge, porque para ser paciente e para ter compaixão requer Criatividade,

  • para abraçar o erro;
  • para olhar para o espelho e gostar de quem vê do outro lado;
  • para encontrar o seu espaço e tempo sem se culpabilizar;

É pela expressão criativa que é possível trazer à sua vida as características únicas que fazem de si também um ser único e que na sua essência não conhece nem a raiva nem a frustração.

Com isto aceita não ser mais um relógio suíço de precisão, sem espaço para errar, mas por outro lado em risco constante de explodir.

Boas práticas.

Refeições no frasco
Desintoxicar o Fígado