Dia #12 – Depois da Chuva em Pequim

Há dois dias atrás Pequim sofreu uma das tempestades mais violentas de há 60 anos.

Onde me encontro, a uma hora da capital da China, o meu conceito de “tromba de água” foi reajustado para algo massivo. Por várias vezes experienciei chuva intensa, pesada e súbita durante algumas horas pelos vários lugares por onde já vivi e que causou sempre numerosos estragos – especialmente nas cidades.

Aqui durou mais de 24 horas com uma intensidade, uma constância e equanimidade como só a natureza tem a capacidade de sem manifestar, arrastando consigo árvores, aplainando campos de milho e desorientando pássaros que literalmente se despenhavam arrastados pelo vento.

O treino prosseguiu como habitualmente. Entrincheirados nos vários alpendres da sala de prática ao ar livre, todos praticaram à hora marcada. Os alunos apareciam à chamada para aula, escondidos por detrás de chapéus de chuva prestes a colapsar, sapatos e roupa molhada de água que o vento tornava impossível de prever de onde surgiria.

O treino tornou-se assim o único ponto fixo no centro da tempestade que desabava em Tao Lin. Tudo o resto rodopiava, agitava-se, gemia. Às vezes de forma inesperada e assustadora.

No dia seguinte depois da tempestade e entre as horas de treino, os ramos caídos foram retirados do caminho, o chão varrido e as reparações necessárias efetuadas – todos ajudaram.

Em poucas horas tudo estava de novo funcional.

Passaram 12 dias desde a minha estadia aqui, mas não é difícil de observar que o treino é o ponto fixo desta comunidade.

Durante seis horas por dia a quietude é abraçada das 8 às 11:30 e das 14:30 às 17:30. Sem concessões e incondicionalmente.

Um ponto de quietude é uma determinação, que não tem de ser o Chi Kung, pode ser comer equilibradamente pelo menos uma refeição ao dia, pode ser meditar, pode ser o passeio a pé matinal, ou o final da tarde no sofá a descomprimir.

A prática deste ponto nos dias “comuns” prepara terreno para quando o inevitável está instalado e para quando o caos surge – muitas vezes inesperadamente e com duração incerta.

Pode ser um dia, um fim de semana, semanas ou meses.

Quando a prática sobrevive a estes dias e acontece, transforma-se no ponto alto de onde é possível ver com mais clareza e perspetiva; prepara-nos quer seja para recolher destroços quer seja para a realização de que estamos vivos mais um dia – prontos para assumir de novo – as vezes que forem necessárias e para além de tudo o resto que possa surgir – este ponto de quietude nas nossas vidas.

Boas práticas.

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