Dia #15 – A arte dos transplantes

A prática do Zhan Zhuang Chi Kung pode ser observada de várias perspetivas:

  • A Taoista, onde lidamos com as forças da natureza, a gravidade, o clima e procuramos estar de pé sem esforço, alinhados com o Céu e a Terra. Não adicionamos mais nada, utilizamos os recursos presentes no aqui e agora. É o realizar muito utilizando muito pouco. 
  • A Confucionista, em que pelo ritual de diariamente assumirmos uma postura e de a cultivarmos com diligência e regularidade esta torna-se incorporada, parte do praticante e do seu dia a dia. 
  • A Budista, em que aprendemos a observar a realidade como ela é e a cultivar o desapego e o não julgamento. Os desconfortos que surgem durante as posturas significam um alinhamento postural que pode ser reajustado -embora possamos estar convencidos que temos uma postura alinhada e relaxada.  Somos confrontados que existe um desfasamento entre a nossa realidade e a realidade tal como ela se apresenta – é este desfasamento que pouco a pouco é ajustado. Aprendemos que não adianta julgar os desafios que surgem neste processo, nem a ficar contentes com as nossas conquistas – tudo afinal é impermanente.
  • A Religiosa, onde – independentemente que religião seja – auxilia o corpo a estar saudável e a intenção a ficar mais clara –  para as longas horas de meditação e trabalhos repetitivos que são realizados nos templos. 
  • A Marcial, onde o alinhamento cultivado pode em situações de confronto ser decisivo – especialmente se os dois oponentes têm forças muito semelhantes.
  • A Terapêutica, onde a pratica continuada consegue fortalecer o seu potencial interno de regeneração e que gradualmente consegue recuperar e fortalecer o seu corpo e mente. 

Aqui em Tao Lin consigo observar nos praticantes mais experimentes todas estas dimensões. É esta a mentalidade oriental: não existem caixas, divisões ou locais para arumar estas categorias. Tudo faz parte de tudo.

São conhecimentos comunicantes que se alimentam mutuamente – sem esforço. Remontam ao tempo em que não havia fronteiras – nem geográficas, nem ideológicas ou mentais.

Cortar uma dessas comunicações – assumindo uma escola ou ideologia – é como cortar uma parte da raiz de uma grande árvore e enfraquece-la no processo.

É comum que a mente ocidental na vontade de compreender este universo de tudo em tudo necessite de disseca-lo, de dar-lhe dar nomes, de coloca-lo em caixas, de assumir uma posição única e às vezes rígida de Taoismo, Budismo, Confucionismo, Marcial, Terapêutico….

Por isso é que o conhecimento que vem do oriente (às vezes) quando é transplantado para o ocidente tranforma-se em algo desinteressante, gasto, tenso, conflituoso, competitivo, hierárquico, artificial e eventualmente termina porque se tornou também num conhecimento estéril incapaz de se reinventar e reproduzir.

Não quero expressar com isto que não se dê nomes ao que se ensina ou assuma uma posição coerente.

Proponho-lhe seguinte exercício.

Imagine que esse conhecimento é uma árvore pequena a ser transplantada.

Prefere planta-la num vaso de uma forma controlada, regulamentada, calibrada, catalogada, isolada e laboratorial – onde eventualmente vai acabar por por secar por falta de interação nutritiva com o exterior. Por mais boa vontade que exista.

Ou prefere coloca-la numa floresta – onde pode crescer, dar frutos, interagir e fazer parte de um Todo. Tudo isto sem qualquer esforço.

Boas práticas.

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