China dia #61 – Os guardiões do templo

guardiansDurante os dois meses de prática e para além dos ensinamentos do Mestre Cui Ruibin fui acompanhado por estes dois professores: ao centro o Mestre Guo e à direita o Mestre Liu.

À medida que a minha estadia foi enraizando em Tao Lin, entendi que os 70 minutos de quietude são universais no que diz respeito ao desafio que isso possa colocar ao praticante – para os ocidentais e para os orientais.

Observei praticantes a chegar ao terreno sagrado de prática, a serem instruídos por um destes dois professores sobre princípios desta arte, sobre a posição correta dos pés, das mãos, dos ombros, da cabeça e da intenção que deve ser cultivada durante a postura.

Ás vezes nem cinco minutos passavam e a postura era abandonada, puxavam do smartphone do bolso e já estavam a filmar ou a tirar fotos ao recinto de prática. Alguns ainda voltam à postura – por momentos – outros sorriam para os professores e decidiam em alternativa visitar o complexo de prática – de telefone em punho.

Uns voltam mais tarde, outros não.

Alguns, depois das mesmas instruções ficavam, transpiravam, tremiam ou nem por isso: o exterior mantinha-se pacífico como um lago, naquela expressão oriental dos budas, aguardavam pacientemente que os 70 minutos ou mais chegassem ao fim e que lhes fosse instruído para mudar de postura.

Esta atitude não tem a ver com o ser chinês ou não, tem a ver com as nossas questões humanas de raiz: do desafio de tomar contacto com a quietude, com a impermanência e da realização que este processo não tem um fim à vista, mesmo que já existam milhares de horas acumuladas, mas que é um caminho que assenta no princípio de pequenos passos diários e da satisfação que cada passo – por mais pequeno que seja – pode proporcionar.

Os guardiões do templo são necessários para que uma arte se mantenha viva e com uma pureza considerável. Aqui, estes dois guardiões não fecham as portas, mas pelo contrário abrem-nas de par em par todos os dias.

Com uma compaixão ás vezes sobre-humana iniciam os novos alunos, explicam, corrigem, esclarecem vezes sem conta, todos os dias – às vezes para além das 6 horas diárias de treino.

Aprende-se aqui que todos são bem vindos que “guardar uma prática” não é fechar-lhe as portas – mantê-la secreta -, mas sim acolher, apoiar, educar e nutrir.

E quem quiser (mesmo, mesmo) aceitar o desafio entra.

Boas práticas.

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