O cair da ficha

Hoje é possível viajar cada vez mais rápido e em poucas horas é possível realizar uma viagem que demoraria meses ou anos a realizar a pé.

É possível entrar em modo multi-tarefa em prol de uma produtividade que se quer mais rápida e eficiente. Tal como um malabarista, conduz-se, fala-se ao telefone em mãos livres ao mesmo tempo que ainda é possível fumar o cigarro da manhã. pintar as unhas ou deglutir algo antes de chegar ao emprego.

A gratificação imediata surge quando o presente não apresenta “nada de interessante” ou o cansaço aperta e é assim possível à distância de um clique obter conforto emocional em livros, filmes, aplicações, e reconhecimento com a última partilha nas redes sociais.

O corpo procura acompanhar o movimento furioso da mente que dá preferência a exercícios que em pouco mais que 30 minutos permitam trazer saúde e bem estar. No entanto, tem de ser divertido, intenso, popular e queimar muitas calorias.

Quando surge uma notícia que nos faz parar como o desaparecimento de vez de alguém com quem partilhamos a nossa vida temos pelos menos duas alternativas.

Podemos procurar os meios físicos e químicos para que a dor seja adormecida, eliminada e remediada o mais rapidamente possível. Remetido as emoções para aquela pasta do nosso subconsciente em que está escrito – mais tarde.

A outra é esperar que “caia a ficha”.

Para mim é difícil de acreditar que o Francisco Varatojo já não esteja presente no Instituto Macrobiótico de Portugal.

Que não seja possível partilhar muitos dos nossos almoços de quinta-feira ou que não nos sentemos numa mesa a criar uma melhor visão para o próximo curso ou ainda de poder partilhar fins-de-semana de aulas e a nossa paixão comum pelo ensino.

Que a sua gargalhada, o seu bom dia ou o seu caminhar inconfundível no soalho do IMP deixem de ser escutados.

O processo no entanto de cair a ficha não é um adiamento à realidade inevitável, é um manifesto à velocidade dos dias que dá preferência às resoluções práticas, eficazes e à gratificação imediata.
O que está tudo bem se não fossemos em algum grau todos humanos.

Cair a ficha aqui é o luto que em algumas culturas pode ir até 27 meses.

Estas tradições estão ligadas a tempos antes das viagens intercontinentais e da fúria para que tudo aconteça muito rápido para se poder passar à tarefa seguinte.

Aqui compreendia-se o espaço e tempo necessários para que os processos traumáticos e de perca fossem digeridos.

Tal como a macrobiótica, em que a nutrição surge também a partir de cozinhados lentos e de uma mastigação demorada e consciente.

Esta é também para mim uma lição que fica desta partida súbita, de que independentemente da velocidade com que os acontecimentos podem surgir nas nossas vidas, existe uma escolha que podemos sempre fazer: reconquistar o nosso tempo para contemplar e honrar aqueles que partem e assumir a sua perca e como ela se reflete nas várias camadas da nossa vida.

O espaço que este homem deixou é imenso e que não pode ser preenchido porque não há outro Francisco.

No entanto, à medida que a ficha desliza lentamente para a queda, é claro que o que ele deixou como semente em cada um de nós é tremendamente valioso.

Como afirmava numa palestra no final dos anos 90: “Não deixem dinheiro ou bens aos vossos filhos, deixem um Sonho.”

Foi o Francisco, ficou uma estrutura talvez das mais eficientes e humanas a nível mundial no ensino da macrobiótica, ficou um percurso que colocou esta forma de estar no mapa de milhares de vidas ao longo de mais de 3 décadas, mas mais importante: ficou a capacidade, de que independente de quem somos, acreditarmos que podemos realizar o nosso Sonho.

Ao contrário de qualquer guru coercivo que deixa a capacidade no seu séquito de perpetuar o seu sonho pessoal, o Francisco deixou-nos os valores e a capacidade de cada um poder viver a vida que acredita – libertou-nos.

E isso é inquietante, incomum e valioso não só historicamente, mas também nos dias em que vivemos.

Por isso é necessário tempo para cair a ficha, para que tudo o que cada um de nós repousa possa ser encontrado sem pressa e sem pressões externas.

Atualmente, sabemos mais que o Francisco sabia quando há mais de 30 anos fundou o Instituto Macrobiótico e deu os primeiros passos com coragem, honestidade e com entusiasmo que era a sua imagem de marca.

Vamos honrar este trabalho pioneiro e criar também o nosso caminho, o nosso sonho.

Não apenas por ele, mas por nós também.

Obrigado Mestre e amigo.

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