Chi Kung em Viagem – San Servolo, Veneza

San Servolo é uma ilha situada na Lagoa de Veneza e fica a menos de 10 minutos de barco da “Sereníssima” como foi em tempos também conhecida a cidade das gôndolas.

Habitada por monges beneditinos pelo menos desde o século VIII, foi o terreno sagrado desta ordem durante cerca de 500 anos. Esta ilha, com o passar do tempo e a impermanência da histórica, acolheu também freiras, foi um hospital militar e mais tarde um sanatório para tratamento de doenças mentais que encerrou em 1978.

Hoje, San Servolo faz parte de um dos pólos da universidade de Veneza, é uma residência para artistas, um museu, assim como uma pousada aberta ao público e que pode albergar a realização de eventos curtos ou de longa duração.

Estar em San Servolo é como estar num oásis ao abrigo de uma flora rica, que forneceu em tempos medicação baseada nas suas plantas para os militares.

Simultaneamente, encontra-se a uma distância de Veneza que considero ideal; duas vezes por hora um “vaporetto” passa pela ilha e oferece a possibilidade de, para quem desejar, mergulhar no cardume humano de turistas que preenchem as ruas, canais, monumentos, praças e museus.

Se a cidade mãe tem sem dúvida o seu encanto, San Servolo tem para partilhar o silêncio, a quietude e um verde fresco, das variadas espécies de árvores, que ajuda a contrabalançar o calor abrasador de agosto.

O motivo da minha presença em San Servolo começa em 2011 quando recebi um telefonema de uma associação que ensina Yoga para crianças. O meu nome tinha sido o primeiro a aparecer numa busca do Google com a palavra Chi Kung.

A EURYE é uma associação europeia que resulta da expansão da RYE que foi criada em França na década de 70. Assumem-se sem quaisquer papas na língua como os Especialistas do Yoga e Meditação na Educação e são reconhecidos pelo governo francês como tal.

Em 2011 participei assim a convite em Ofir, situado em Esposende, no retiro bi-anual que reúne praticantes de todo o mundo de Yoga para crianças. O Chi Kung é aqui apresentado como uma prática complementar para quem ensina.

Desde então, esta disciplina terapêutica tem feito parte destes eventos.

Este ano em San Servolo estavam presentes 118 participantes. Com muita pena minha sem nenhuma presença portuguesa – entre as 13 nacionalidades.

Tal como o Chi Kung, o Yoga propõe respostas na integração do corpo, da respiração e da mente e uma solução global para quem quer levar a sua paixão de ensino mais longe, mais integrada e mais consciente.

Quando hoje se procuram soluções para o défice de atenção, para o insucesso escolar e para a falta de motivação, esta solução, se é que a há, não começa na sala de aula, começa fora da mesma, em que cada professor faz o seu trabalho de casa pessoal, onde busca um alinhamento que possa fazer a diferença quando chega o momento de ensinar.

Esta não é um solução milagrosa, tirada da cartola, mas sim uma proposta que leva a que o ensino e a pedagogia sejam vistos não como uma profissão, mas um caminho de vida.

Proponho o exercício agora, para que se lembre dos professores inspiradores que teve no seu percurso escolar.

Encontra pontos em comum?

No meu caso, eram professores para além da sala de aula – inspiravam não pela matéria que ensinavam, mas por uma série de competências que tinham, para além da escola, e que incorporavam depois nas aulas.

  • Era o professor de História que fazia vela nos tempos livres e tinha uma experiência vivida sobre a natureza ou vento e as marés.
  • Era o professor de socorrismo que era médico e como era mesmo bom no que fazia, divertido, leve e humano.
  • Era o professor da Religião e Moral que era padre, motard, surfista e “dava uns toques” no skate.

Estes professores eram íntegros no sentido de integração das várias competências da vida e que remonta ao conceito tradicional do ensino, em que a matemática estava misturada com a música, a música com a história, a história com a arte, a arte com a postura corporal, a postura corporal com a geometria, a geometria com o meio físico e ambiente, o ambiente com a alimentação, a alimentação com a agricultura, a agricultura com as estações do ano e a compreensão das estações do ano com a astronomia e matemática.

O Chi Kung é apenas mais uma possibilidade, nas milhares que existem hoje, não é tanto a variedade ou qual é a melhor, mas a capacidade que cada um tem de se dedicar ao que acredita que possui e que pode ser um veículo valioso de transformação no mundo.

Seja ele o Chi Kung, a Macrobiótica, as Danças Sagradas, as Mandalas, o Yoga, a Arte Terapia, a Meditação, a Biodança…

Estar em San Servolo e ser convidado pela EURYE é um honra pela qualidade de trabalho que é desenvolvido por esta associação e que mostra (mais e mais uma vez) que a resposta não está foram mas dentro, na nossa capacidade interna e curiosidade de integração do que somos com o que fazemos, como pais, como educadores e como alunos.

Boas práticas.

Exercite-se menos, mova-se mais
O cair da ficha