A falta que o doce nos faz

Se haveria algo, nos meus primeiros anos de vida, que me causava alguma curiosidade e desassossego mental, se tivesse que construir um top 5, sem dúvida os iogurtes estariam nessa categoria.

Era-me dito que estes alimentos tinham uma data de validade e que depois desta data já não podiam ser consumidos.

Imaginava a passagem de um dia para o outro, em que por um qualquer processo mágico, depois das 12 badaladas, um iogurte perfeitamente próprio para consumo deixava de o ser.

Hoje, este enigma aplica-se também às estações do ano, pois seguindo este linha de pensamento é fácil acreditar que mudam também de um dia para o outro.

No entanto, segundo o pensamento oriental, sensivelmente 3 semanas nas imediações do início de cada estação, dá-se a chamada estação de transição ou estação Terra.

Esta estação é mais visível na passagem do verão para o outono, mas está também presente ao longo do ano nas restantes estações.

Aqui observamos um tempo híbrido e instável que nos presenteia aleatoriamente ou com frio ou calor ou com sol ou com chuva.

Nas imediações das transições observa-se esta instabilidade que poderá durar mesmo mais que 3 semanas e a sua característica principal é a presença das duas estações no mesmo espaço de tempo.

Como duas músicas misturadas com mestria por um DJ numa discoteca.

O convite que é feito aqui é de paragem e observação desta mudança – como quem escuta atentamente a passagem de uma música para a outra – e a organização e encerramento de processos pendentes, antes que a próxima estação se instale definitivamente.

Esta paragem tem a sua importância para que as nossas vidas não se transformem um processo binário, ditado por datas que frequentemente nada têm a ver com a realidade humana ou da natureza.

Casso contrário, corre-se o risco de apenas se observar 4 estações num ano, mas na realidade, existem centenas, para não dizer milhares de variantes. Ou, de observar vida como casa trabalho, casa, trabalho ou dormir, acordado, dormir, acordado ou ainda online, offline, online, offline.

Em meios industrializados é isso que observa: ou a máquina funciona ou não funciona, tem apenas dois estados – ligado e desligado.

A vida humana torna-se muito próxima de um autómato, quando apenas estes dois estados fazem parte do nosso dia dia.

Quando o ser humano investe em processos binários que geram um stress acrescido no corpo e na mente, o doce torna-se assim apetecível. Deseja-se algo que crie expansividade e que quebre o ciclo. Doce aqui não é apenas pasteis de nata ou gelados, mas também álcool e drogas recreativas.

Independentemente dos seus efeitos secundários estas substâncias criam esta paragem, este momento de reflexão necessária e uma certa qualidade de prazer que quebra este ciclo binário – mesmo que seja apenas por breves momentos.

No pensamento oriental acredita-se que o doce da vida não se encontra apenas nas substâncias processadas, mas nos alimentos que existem na cozinha num estado natural:

  • Abóboras
  • Cenouras
  • Batata doce
  • Cebolas
  • Alperces
  • Tangerinas
  • Maças doces
  • Batata redonda pequena cozinhada com casca
  • Inhame
  • Lentilhas laranja
  • Castanhas
  • Milho
  • Millet

A proposta aqui não é a de cozinhar uma refeição exclusivamente com estes alimentos, para que o efeito seja mais forte – Sopa de abóbora, millet com cebolada de castanhas e doce de maça como sobremesa – provavelmente resultará numa sesta obrigatória.

E não é isso que se pretende.

O convite que a natureza lhe faz é que nas épocas de transição utilize juntamente com as refeições alguns destes alimentos numa base diária.

O doce faz abrandar, faz-nos chegar a casa, ganhar panorâmica e uma perspectiva da vida necessárias para a reflexão.

Algumas propostas de paragem sem utilização de substâncias artificiais.

  • Uma sopa de abóbora e lentilhas laranja bem espessa, quando lá fora faz frio;
  • Uma batata doce acabada de sair do forno – comida com casca e tudo;
  • Uma castanha assada ou para os mais requintados um creme de castanha com abóbora como sobremesa;
  • Um creme de maçã acabado de cozinhar polvilhado com amêndoa caramelizada – canela opcional;
  • Millet ou milho cozinhado com abóbora e cebola como cereal principal.

E agora?

O que lhe propomos hoje é o seguinte:

Reveja o seu último ano. Se este ano lhe parece que “passou a correr” significa que não houve muitos períodos Terra. Períodos onde houve paragens que lhe permitiram sentir onde está e para onde quer ir.

É frequente nestes anos alternar-se entre trabalho e fins de semanas ou férias de forma mecânica, sem tempo para colocar os pés no chão e dar o próximo passo, com a consciência e a segurança da terra que está debaixo dos seus pés e suporta cada um dos seus movimentos.

Ou poderá também a nível micro pensr no seu dia de hoje ou de ontem.

Passou rápido ou foi um dia mais lento e consciente?

Quando aplica esta ideia das estações ao seu dia a dia, poderá observar que existem momentos chave mais propícios a parar:

  • A meio da manhã
  • Depois do almoço
  • A meio da tarde
  • Depois do jantar

Estes são os momentos Terra do seu dia, são as suas estações de transição. Aqui, pode adoptar esta a prática sempre que lhe seja possível: parar, sentir os seus pés no chão, respirar fundo e sorrir. Ou, se preferir, comer algo que lhe preenche a alma e que seja saudável e nutritivo.

Deixamos como sugestão prática um dos nosso elixires preferidos que faz abrandar consideravelmente o tempo cá em casa.

Uma sopa de abóbora com cebola e lentilhas vermelhas.

 


Para um efeito mais profundo poderá ser saboreada sem distrações adicionais.

Mais informação sobre este tema pode ser encontrado no livro Regenerar – no Capitulo 4 – Reflectir, digerir e organizar.

Bom apetite, boas leituras.

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