Conversas sem fim – As duas metades

A anciã Colette Maze é uma das pianistas mais velhas no mundo, começou a tocar piano com 4 anos e agora, com 106 anos continua a tocar, compõe música como “alimento para o espírito”. Em plena pandemia acaba de gravar o sexto álbum de clássicos, lançado em abril de 2021, com obras de Debussy, esta é uma das minhas favoritas Clair de Lune.

“Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade. Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade parvoíce, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.”
Meus amigos, é um poema de autoria desconhecida, às vezes é atribuído a Fernando Pessoa, não consta da sua obra completa, outras a Oscar Wilde.

Quando eu era mais nova ouvia a frase de que “somos a metade de uma laranja à procura da outra metade”, sendo que essa outra metade seria outra pessoa, mas, sempre a achei estranha. Nunca me senti metade de quem sou, podia até esconder algumas partes de mim para agradar a alguém, muitas vezes senti-me partida, perdida, com vazios, em pedaços, triste, sozinha ou acompanhada durante mais ou menos tempo, fazendo sempre o meu caminho caminhando, fui acima e abaixo, andei pelo mundo interno e externo, no entanto sempre me considerei inteira por dentro, esta mistura de anciã e criança interior que me mantém o espírito com sentido de humor, alegria, sorriso, curiosidade e amor pela vida. Agora compreendo melhor o sentido das metades e a frase que um amigo meu diz “corta isso ao meio de dá-me as duas ametades”.

No filme Terra Sonâmbula, uma co-produção portuguesa e moçambicana de 2007, dirigida por Teresa Prata, adaptação cinematográfica do livro homónimo de Mia Couto, deixa lentamente para trás a dura realidade da guerra e entra no fantástico, onde os sonhos se tornam realidade e o mar invade a estrada poeirenta, também senti este juntar das duas metades cá dentro.

Destaco duas frases do filme que achei deliciosas:

“a erva parece seca mas não é, apenas vazou o verde e engordou o amarelo” onde relembro que as sementes ou as nossas raízes, também são flores, basta (re)conhecê-las.

“coração que ama emagrece e o amor crescer mais rápido que o peito, e você não tem costelas que cheguem”, realmente há muitas pessoas que se cruzaram na vida e deixam marcas, às vezes pergunto-me, se eu não fosse eu e viesse ter comigo mesma a pedir conselho sobre algo, o que me diria?, serão as duas metades a conversar?

Felizmente a realidade do cenário do filme não é a minha mas reconheço perfeitamente as cambiantes das emoções a ela associadas, revisitar algo muitas vezes traz-me sempre algo de novo, pois no antes era outra pessoa, ou estava noutro estado da minha idade interna, anciã ou criança e todas as cambiantes entre elas. Gosto de voltar à “base” e sentir as diferenças agora com outro poder de atenção, memória muscular, visão, etc., que apesar de ser o mesmo não sinto de igual forma.

(foto MJL – 2021)

Vou em frente em retas feitas de linhas e andando não em círculos mas em ciclos de espirais fractais que me elevam caminhando, fazendo o caminho, um passo de cada vez num revolver do percurso, num revelar de pensamentos ou sentires sempre novos e antigos.

Todos estes intrincados trouxeram-me da memória a letra de uma música dos Toranja, chamada Laços, “andamos em voltas retas na mesma esfera… tens fios demais a prender-te as cordas… tens riscos demais a estragar-te o quadro… mas se vieres sem corpo à procura de luz…”.

O caminho é para a frente onde nunca estive em vez de para trás onde já estive e chego sempre onde vou afastando-me de onde estava.

Tic-take time com qual das metades?

como sempre assino, MJL

Bla

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