The Wisdom of Tea

Life Lessons from the Japanese Tea Ceremony, Noriko Morishita (tradução de Eleanor Goldsmith), 2020.

O chá, além de ser uma bebida elegante, que desperta a mente e eleva o espírito, é um assunto fascinante. Objeto de crescentes estudos sobre as suas potencialidades de bem-estar e saúde, já foi base e foco de contenda entre nações, de monopólios e revoltas, de intriga e inveja e atividade soez. Hoje em dia, para além da água, é a bebida mais consumida em todo o mundo, com o Dubai a representar o novo hub global para o comércio internacional do chá e do café. É produzido um pouco por todo o mundo, estando Portugal representado pelo chá da marca Gorreana, manufaturado no arquipélago dos Açores.

A planta do chá é originária da China, mais particularmente da zona de Yunnan, onde se encontram, ainda hoje, árvores e arbustos de camellia sinensis que se calcula terem entre 500 e mil anos. Terá começado tudo aí. Mas este “tudo” tem de ser qualificado: quem “começou tudo” terá sido o Imperador chinês Shen Nong que, em 2737 a.C., descobriu o chá por mero acaso: quando estava a ferver água no jardim, caiu uma folha da planta do chá no recipiente, proveniente de uma árvore que ali encontrara pouso e sustento. Shen Nong gostou tanto do sabor que se decidiu a investigar sobre a planta, tendo chegado à conclusão de que esta teria propriedades medicinais.

A versão que liga Bodhidharma – o monge que introduziu, no século V ou VI, o Budismo na China – ao chá não é menos imaginativa. Numa das versões da história, diz-se que terá adormecido durante sete dos nove anos em que se propusera olhar para uma parede e que, enraivecido consigo próprio, cortou as pálpebras, de modo a evitar que tal sucedesse de novo. No exato sítio onde as pálpebras tocaram no solo, cresceu uma planta do chá, cuja infusão viria a ajudar os monges a manterem-se acordados durante as sessões de meditação.

O que temos por certo é que, por volta de 1191, um monge japonês, Myoan Eisai – fundador da escola Rinzai do Budismo Zen – trouxe sementes e arbustos da China para o Japão e plantou alguns na zona mais a sul da ilha de Kyushu, a terceira maior ilha do arquipélago japonês. Eisai popularizou o hábito de beber chá no Japão durante o período Kamakura (1185-1333), tendo escrito um livro seminal sobre as propriedades medicinais e de promoção da saúde do chá, Kissa Yojoki (traduzível como “Beber chá para a saúde”).

Se Eisai está indelevelmente ligado à introdução chá no Japão, Sen no Rikyu, que viveu entre 1522 e 1591 é, indubitavelmente, a figura histórica que mais influenciou a via, o caminho do chá – chado/sado/chanoyu – tal como o conhecemos hoje. Foi ele quem delineou os princípios de temae (etiqueta do chá, mas também os procedimentos que são levados a cabo no âmbito da cerimónia do chá): wa (harmonia), kei (respeito), sei (pureza) e jaku (tranquilidade), bem como as suas regras.

Durante vinte e cinco anos, Norito Morishita, a autora do livro que aqui se apresenta brevemente, estudou a cerimónia do chá com a “Tia” Takeda, uma chajin (isto é, uma pessoa que pratica a cerimónia do chá) a qual, de acordo com a mãe da autora, tinha uma forma especial, diferente, maravilhosa de fazer vénias.

Para uma jovem que frequentava o terceiro ano da Universidade, ainda sem perspetivas de emprego ou de vida além-estudos, a proposta que lhe havia sido feita pela mãe de ir estudar a cerimónia do chá pareceu-lhe, na altura, quase ridícula: um hobby insuportavelmente antiquado, um símbolo de estatuto social elevado, uma atividade em que se envolviam mulheres que gostavam de se mostrar umas às outras, uma futilidade, numa palavra.

E, no entanto, Michiko, uma prima da mesma idade e uma das suas melhores amigas de sempre, adorou a ideia. Corria o ano de 1977 e ambas tinham vinte anos.

A aprendizagem, como bem sabemos, é feita de altos e baixos, avanços e recuos, vaivéns sucessivos, consolidações seguidas de olvido e frustração. Aprender, adquirir os necessários procedimentos, alinhar a mente e o corpo com utensílios, gestos, atitudes, passos, intuir e internalizar firmeza suave de mãos e torso e, sobretudo, estar “ali” no momento, em cada momento, não é fácil nem inicialmente intuitivo.

De tudo isto nos dá conta a autora. Cada capítulo é uma narrativa de lenta aprendizagem, de admoestações, brandas mas certeiras, por parte da Sensei Takeda. A primeira lição começou com a dobragem do fukusa (e não, ao contrário do que esperava Norito, com uma palestra sobre chá), um pano do tamanho aproximado de um lenço de assoar masculino, feito de seda. Este pano é usado à cintura, dobrado em triângulo, com a ponta metida dentro do obi (um cinto, de largura variável, que se usa em roupa tradicional japonesa, como é o caso do kimono). A brilhante descrição da dobragem pode ler-se a páginas 5 e 6. A “atuação” da professora é estonteante, pela modelagem perfeita que faz, pelas indicações que vai dando, pelos termos por que vai designando cada um dos procedimentos.

Mas o livro é mais do que a narrativa do que Norito vai aprendendo, e das dúvidas que, por vezes, se instalam relativamente ao interesse de que se reveste a aprendizagem desta arte demodée, aos olhos de alguns retrógrada e inútil. Cada capítulo é titulado por um princípio, uma observação, um conselho, algo que a autora vai retirando da sua experiência dos sábados em casa da professora Takeda. O primeiro capítulo, por exemplo, tem por título “Aprende que não sabes nada”, o que, à primeira vista, está em perfeita sintonia com o facto de estar a dar os primeiros passos na aprendizagem, mas que é mais subtilmente profundo: aprender a cerimónia do chá implica, envolve uma atitude de absoluto principiante, pressupõe alguém cuja mente está continuamente aberta, alerta, “acordada”. Lembrou-me, quase imediatamente, o título do livro do Mestre Shunryu Suzuki, “Mente Zen, mente de principiante”.

O livro é, por tudo isto, enganosamente simples, simplesmente profundo.

A tradução de Eleanor Goldsmith é excelente.

Boas leituras!

José Carvalho

Para saber mais:

O Livro do Chá: A arte de uma tradição ancestral, Kakuzo Okakura, Alma dos Livros, 2021. Este é um clássico sobre a cerimónia do chá, escrito por um exegeta japonês em 1906 diretamente em inglês.

Making Tea, Making Japan. Cultural Nationalism in Practice, Kristin Surak, Stanford University Press, 2013.

Escrito por uma Professora de Política Japonesa da SOAS, Londres (School of Oriental and African Studies) que fez trabalho de campo durante vários anos no Japão, o livro constitui um relato fascinante da sua observação participante enquanto aluna da cerimónia do chá.

Cha-no-yu. The Japanese Tea Ceremony, A. L. Sadler, Charles E. Tuttle, 1962.

Para quem quiser aprofundar conhecimentos sobre a cerimónia do chá, este livro é uma excelente fonte, completíssima. Ainda se encontra em livrarias online por um preço razoável.

BEGIN Japanology: Tea Ceremony

Um episódio desta série de vídeos sobre cultura japonesa que versa a cerimónia japonesa do chá .

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