Zen Flesh, Zen Bones: A Collection of Zen and Pre-Zen Writings

Paul Reps & Nyogen Senzaki (Compilação). Penguin, 2006.

Muitos de nós já ouviram a pergunta paradoxal: “Duas mãos batem palmas e há um som. Qual é o som de uma só mão?”. Os mais “vetustos” – categoria em que me incluo – lembrar-se-ão do álbum de Cat Stevens, “Catch Bull at Four”, cuja capa contém uma imagem de um monge budista a acariciar um boi. O primeiro destes exemplos é um koan, isto é, uma pergunta feita por um mestre a um seu discípulo, cujo objetivo é o de testar a capacidade do discípulo, num determinado momento, para ir além do pensamento dualístico. O segundo faz parte de um conjunto de desenhos de dez bois, criados e comentados, em prosa e em verso, por um mestre Chan chinês (o equivalente Chan em japonês é Zen), de nome Kakuan, que viveu no século XII. Cada desenho corresponde a um estágio do progresso atingido pelos praticantes da meditação budista. O boi é um dos símiles mais antigos da prática da meditação.

A primeira edição do livro que aqui apresento é de 1957. Nessa altura, o Budismo Zen não era tão conhecido como o é agora, em que o termo Zen se popularizou e é feito equivaler, no mundo do marketing e da publicidade, a bem-estar, harmonia, paz de espírito. Talvez por isso, pela novidade que representava para o público ocidental, foi um sucesso editorial logo desde o início da sua publicação.Apesar do seu formato reduzido e das sua “magreza”, o volume contém quatro livros, que constituem outras tantas fontes primárias de textos centrais Zen e pré-Zen:

101 Zen Stories (101 histórias Zen), que relatam experiências de mestres de Zen japoneses e chineses, abarcando cinco séculos. Deixo aqui uma tradução para português de uma das histórias, a 14.ª:

Rua lamacentaTanzan e Ekido [dois monges Zen] caminhavam em viagem por uma estrada lamacenta. Caía ainda uma chuva forte.Depois de uma curva, viram uma rapariga bonita vestida num kimono de seda com cinto, incapaz de passar para o outro lado sem se sujar.“Venha”, disse-lhe Tanzan assim que a viu. Carregando-a nos braços, passou-a para o outro lado.Ekido só voltou a falar quando, nessa noite, chegaram a um templo que lhes deu guarida. Aí, não conseguiu conter-se: “Nós, monges, não nos aproximamos de mulheres”, disse a Tanzan, “ainda para mais se forem jovens e bonitas. É perigoso. Por que é que fizeste aquilo?”“Eu deixei a rapariga lá”, disse Tanzan. “E tu, ainda a trazes contigo?”

The Gateless Gate (O portão sem cancela) (também tem sido traduzido para inglês como The Gateless Barrier – A barreira sem cancela), uma coleção de 49 koan, 48 dos quais da autoria do monge budista Chan chinês Wumen Huikai. O patronímico Wumen foi traduzido para japonês como Mumon; daí que a coleção também seja conhecida por Mumonkan). O último koan foi escrito uns anos mais tarde por Anwan, outro monge Chan chinês, fazendo agora parte da estrutura canónica do texto. Trata-se, na verdade, de histórias das relações estabelecidas entre um mestre e um pupilo, seguidas de comentários feitos por Wumen Huikai [Mumon].Deixo aqui a tradução para português da primeira delas:

O cão de JoshuUm monge perguntou a Joshu, mestre Zen chinês: “Um cão tem natureza de Buda ou não?”Joshu respondeu: “Mu” [Mu é o símbolo chinês de negação, significando “Nada” ou “Não”].

Segue-se o comentário de Mumon.

10 Bulls (10 bois), como se viu acima, é um conjunto de desenhos, feitos por um monge Chan, Kakuan, baseados em figuras taoístas mais antigas, a cada uma quais adicionou comentários em prosa e verso. As ilustrações constantes desta secção do livro são versões modernas feitas por um renomado artista japonês de xilogravura , Tomikichiro Tokuriki (1902-1999).

Centreing (Centramento) é a última secção do livro e contém uma transcrição de velhos manuscritos sânscritos que apresentam ensinamentos que ainda hoje estão ativos na região de Caxemira e noutras partes da Índia. Estes ensinamentos, de acordo com os autores, podem bem constituir as raízes do Budismo Zen.

Nota: A 1.ª secção do livro – 101 histórias Zen – foi publicada em português, sob título homónimo, em 1987, pela editora Presença, com segunda edição em 1990.

Boas leituras!
José Moura Carvalho

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